jeudi 27 janvier 2011

Paço Imperial. Rio de Janeiro








Entre o violão e o cavaquinho o chorinho é rei, no reino de uma livraria que amavelmente convida a apreciar todo o conhecimento que se deposita nesse lugar situado no museu do Paço Imperial.

Todo mundo é bem vindo e não é obrigatório comprar ou consumir no café dessa livraria.








Encontros. Milton Santos
Azougue Editorial. RJ
2007
Um encontro : Milton e Gil. 1996
Pag. 106 ( fragmento )
GG - Eu gostaria que o senhor me falasse um pouco de um conceito, que eu sei que está nos seus livros, eu não o li, mas o senhor mencionou numa palestra que fez na Câmara de Vereadores de Salvador, onde eu era vereador alguns anos atrás, que é o conceito de fase popular da história. De onde o senhor tirou isso? Porque estaríamos, segundo o seu sentimento, seu conhecimento, numa Fase Popular da História, o que quer dizer isso com relação a outras fases que a história humana tenha vivido?
MS - Eu creio que o homem ocidental se acostumou a pensar a história a partir de um processo, que é dito ás vezes revolucionário, mas que é linear, porque o homem ocidental pensa a história a partir da técnica, cujas grandes mudanças praticadas são sobretudo quantitativas, e só aparentemente qualitativas.
É a quantidade de razão incluída nos objetos que permite ao homem o chamado progresso, uma outra visão do mundo, uma outra possibilidade de atacar a natureza e de, assim, produzir relações etc. Eu creio que nós estamos entrando em uma fase diferente, porque vai haver uma mudança qualitativa extremamente forte, onde tudo vai se submeter ao homem e não à técnica, ela própria comandada pela produção como tem sido até hoje.
Bom, essa tese nova é de difícil aceitação, porque de um lado ela parece se chocar com a maneira de pensar que nos foi ensinada pelos europeus, diante dos quais nós temos tendência a ser muito reverentes, mas por outro lado essa nova tese resulta não apenas de uma vontade de esperança e de uma crença no futuro, mas de uma leitura diferente do fenômeno técnico, uma leitura mais filosófica do que pragmática.
O fenômeno técnico é por definição também uma forma de produção da inteligência do homem...
GG - É como uma extensão da mente.
MS - Exato.
GG - Dos corpos e das mentes. Mecanismos e pensamentos...
MS - ...ligados á forma de viver que vai se modificando a partir das formas do fazer.
Nesse sentido, creio que a urbanização e a urbanização acelerada, urbanização devastadora e, sobretudo no nosso país, a forma como as nossas cidades cresceram, assim como as africanas e também as asiáticas, são um estouro, criado a partir das novas tecnologias e cheio de consequências inesperadas.
As novas tecnologias empurram o homem para as grandes cidades, porque o campo se moderniza ...
GG - Ele próprio se torna praticamente uma extensão da cidade.
MS - O campo se esvazia e, é a cidade que tem muitos e diversos empregos e o campo gravita em tôrno de uma ou algumas atividades, então ele expulsa as pessoas, que vêm então para a cidade. Vêm para a cidade para serem pobres. Alguns melhoram de vida, mas a grande massa permanece pobre, e este fenômeno de pobreza na cidade hoje esta também presente no hemisfério norte.
Cada dia eu me convenço mais que os pobres são mais fortes do que nós da classe média e do que os ricos, porque os pobres é que tem a possibilidade de sentir e pensar.
O nosso pensamento é enquadrado, primeiro pelo nosso interesse, mas também pela forma como nós instrumentalizamos tudo, até mesmo os nossos bairros, as nossas casas. Tudo isso é uma prisão para o pensamento.
Ora e aí entra uma outra discussão filosófica, epistemológica: a necessidade que eu estou sentindo agora de recusar a epistemologia do iluminismo que nos ensinou a fraqueza dos pobres.
GG - O chamado conforto burguês.
MS - O grande conforto burguês, traz uma preguiça intelectual.
GG - É a renúncia a isso, renúncia a atividade pulsante da mente e do corpo no sentido mais rigoroso.
MS - Exato. E o conforto supõe pragmatismo, supõe um investimento cada vez maior em pragmatismo. Quem pensa o novo são os homens do povo e seus filósofos, que são os músicos, cantores, poetas, os grandes artistas e alguns intelectuais.

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